TECNOLOGIA
Arranjo se forma sozinho
Japoneses criam jogo de peças moleculares
SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Folha de S.Paulo
São Paulo - SP
Brazil
Lego pode ser uma unanimidade
entre crianças, mas adultos brincando com pecinhas de montar não costuma ser uma
visão muito popular ou frequente _exceto se você estiver no Instituto Nacional
para Ciência de Materiais, em Nagoya, no Japão.
Um grupo de cientistas do instituto _ao qual pertence o Nobel de Química Ryoji Noyori_ e do Laboratório de Pesquisa em Comunicações, em Kobe, está desenvolvendo um "nanolego" que usa moléculas como peças. O objetivo do inofensivo brinquedo é montar componentes que possam ser usados na construção de equipamentos para atuar em escalas muito pequenas, como no interior de células.
O problema é que essas nanomontagens exigem uma precisão enorme, o que nem sempre é fácil de conseguir. "Sabemos montar reduzindo, como a indústria de semicondutores faz, chegando a até cem nanômetros [milionésimos de milímetro]. A química nos ensina como construir ampliando, mas não ainda até a escala da nanolitografia, chegando a até um nanômetro", disse à Folha Paul Weiss, da Universidade Estadual da Pensilvânia, EUA. "Esse trabalho é um passo sobre o vão."
Weiss não faz parte do grupo que criou as peças do nanolego, liderado por Takashi Yokoyama, mas trabalha na mesma área. Ele foi convidado pela revista "Nature" (www.nature.com), que publica hoje os resultados japoneses, para comentar o estudo.
Encaixes variados
A criação japonesa consiste em moléculas com
formato de cruz feitas sob medida, como peças de brinquedos de montar. Dispostas
sobre uma placa de ouro, essas moléculas orgânicas simples se encaixam umas nas
outras.
E é aí que entra o diferencial: assim como peças de lego se ajustam umas às outras de acordo com o encaixe que possuem, a molécula, dependendo da composição de suas pontas, se encaixa nas outras de um modo diferente.
Graças a esse mecanismo, eles conseguiram elaborar vários arranjos de moléculas. E especulam com a possibilidade de criar estruturas mais complexas _mas, por ora, é só especulação, mesmo.
"Conseguimos a formação seletiva de nanoestruturas moleculares em uma superfície, mas elas são muito simples", diz Yokoyama. "Para fazer arranjos moleculares funcionais, precisamos construir estruturas mais complexas e variadas em uma posição desejada na superfície."
Copiando a biologia
De todo modo, o japonês não antevê impedimentos
para o contínuo desenvolvimento da tecnologia. "Acho que os problemas não são
sérios, porque sistemas biológicos, como o DNA, o fazem", afirma, referindo-se à
capacidade da molécula de codificar proteínas _que, em última análise, são
nanomáquinas naturais.
Reiss parece concordar que os problemas são todos solúveis, mas não menospreza as dificuldades à frente. "Não será preciso grandes revoluções, mas ainda há muito o que fazer", diz.
Ele aponta algumas das dificuldades a serem superadas. "Há limitações no tamanho das cadeias [de moléculas] e no fato de não poderem atravessar defeitos na superfície, mesmo degraus de um átomo. Além disso, a superfície em que trabalham não é um substrato ‘tecnológico’, como silício."
O próprio Reiss indica que há boa chance de os japoneses superarem, pelo menos, a troca de uma placa de ouro por outra mais adequada, de silício, elemento semicondutor que forma a base de quase toda a tecnologia eletrônica atual. "Acho que não será difícil de fazer", afirma o norte-americano. "Mas ninguém ainda tentou."
Outras prioridades
Pelo visto, no que depender de Yokoyama e de
seus colegas, ninguém vai tentar trocar a superfície de trabalho agora.
Aparentemente, o grupo está com outras prioridades no momento.
A equipe elenca como próximos passos o "avanço nas técnicas de construção de estruturas moleculares desejadas em superfícies e a medição das funções eletrônicas e ópticas das estruturas moleculares", segundo o cientista japonês.